quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Conservadorismo (1)


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O mundo é marcado e dividido por ideologias políticas, o que se reflecte na existência de partidos políticos que espelham, até certo ponto, a realidade das diferentes ideologias. Nesse mundo fragmentado sob o ponto de vista ideológico-político, o Conservadorismo ― que na minha opinião não é uma ideologia política no sentido vulgar ― foi até há bem pouco tempo considerado decadente e anacrónico pelos ideólogos e analistas políticos. Não sendo o Conservadorismo uma ideologia política propriamente dita ― contrariando a maioria das opiniões nesta matéria ― tem sido, porém, erroneamente considerado como uma “anti-ideologia” pelos ideólogos políticos modernistas, e principalmente pelos pós-modernistas. A verdade é que o Conservadorismo também não é uma “anti-ideologia”, como se verá mais adiante.

domingo, 26 de outubro de 2008

Problema prático e o problema teórico

O "problema prático" consiste em fazer com que aquilo que não é por natureza, passe a ser, porque convém que seja: aquilo que não é na realidade, passa a ser por uma atitude mental em que se projecta uma modificação do real, dando-lhe um ser que não existe (não é) porque convém que a realidade tal como é, não seja.

O "problema teórico" consiste em fazer com que aquilo que é (aquilo que existe) passe a não ser ― o que irrita o intelecto utilitarista pela sua insuficiência.

domingo, 5 de outubro de 2008

Possível teste para um aluno universitário de Filosofia

Enunciado

Albert Einstein divulgou o seu conceito de simultaneidade de dois acontecimentos. Fez notar que a determinação da simultaneidade pressupõe uma transferência de informação da forma de um sinal a partir dos eventos em questão para um observador. Mas a transferência da informação de um ponto para outro demora um período finito de tempo. Assim, no caso de os eventos em questão ocorrerem em sistemas que se movimentam relativamente um ao outro, juízos de simultaneidade dependem de movimentos relativos dos sistemas e do observador. Dado um particular conjunto de movimentos, o observador José no sistema 1 pode ajuizar que o evento X no sistema 1 e o vento Y no sistema 2 são simultâneos. O observador João no sistema 2 pode ajuizar o contrário. E não existe nenhum ponto de observação eleito a partir do qual seja possível determinar que o José está correcto e que o João está errado ― ou vice-versa. Einstein concluiu que a simultaneidade é uma relação entre dois ou mais eventos e um observador, e não uma relação objectiva entre eventos.

Questão

Indique (pelo menos) um erro no raciocínio de Einstein.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Só não concordo com a menção a Montaigne que não era um utilitarista

Texto de João Pereira Coutinho, jornalista.



«Não tenho filhos e tremo só de pensar. Os exemplos que vejo em volta não aconselham temeridades. Hordas de amigos constituem as respectivas proles e, apesar da benesse, não levam vidas descansadas. Pelo contrário: estão invariavelmente mergulhados numa angústia e numa ansiedade de contornos particularmente patológicos. Percebo porquê. Há cem ou duzentos anos, a vida dependia do berço, da posição social e da fortuna familiar. Hoje, não. A criança nasce, não numa família mas numa pista de atletismo, com as barreiras da praxe: jardim-escola aos três, natação aos quatro, lições de piano aos cinco, escola aos seis, e um exército de professores, explicadores, educadores e psicólogos, como se a criança fosse um potro de competição.


Eis a ideologia criminosa que se instalou definitivamente nas sociedades modernas: a vida não é para ser vivida, mas construída com sucessos pessoais e profissionais, uns atrás dos outros, em progressão geométrica para o infinito. É preciso o emprego de sonho, a casa de sonho, o maridinho de sonho, os amigos de sonho, as férias de sonho, os restaurantes de sonho.


Não admira que, até 2020, um terço da população mundial esteja a mamar forte no Prozac. É a velha história da cenoura e do burro: quanto mais temos, mais queremos. Quanto mais queremos, mais desesperamos. A meritocracia gera uma insatisfação insaciável que acabará por arrasar o mais leve traço de humanidade. O que não deixa de ser uma lástima.

Se as pessoas voltassem a ler os clássicos, sobretudo Montaigne, saberiam que o fim último da vida não é a excelência, mas sim a felicidade!»