Sábado, 7 de Fevereiro de 2009

Falta de tempo

Impossível alimentar dois blogues em simultâneo. As minhas ideias seguem em Perspectivas Ler mais......

Sábado, 15 de Novembro de 2008

O relativismo moral, o egoísmo e a ministra


Em conversa com uma pessoa muito mais nova do que eu, veio à baila a reivindicação de adopção de crianças por duplas de homossexuais. “Cada um sabe de si”, disse ela, “as opiniões são relativas e ninguém tem o direito de criticar os gays por quererem adoptar crianças”.

Logo a seguir, mudando de assunto, a minha interlocutora professora passou a criticar a ministra da educação. Naturalmente que quando criticamos as opções da ministra não podemos destacá-as das opções do ser humano que é a ministra; as políticas adoptadas pela ministra são consentidas pela pessoa que ela é. Por isso, é impossível dissociar uma pessoa das suas ideias e comportamentos.

“Se adoptamos uma posição relativista perante tudo o que acontece ao nosso redor” ― retorqui -- “perdemos o direito moral de criticar quem quer que seja”. Ela riu-se, amarelada, pediu desculpa que estava atrasada, e “deu às de vila Diogo”. Quando não se têm argumentos “dá-se corda aos sapatos”.

É preciso dizer que um relativista não é um revolucionário: é antes alguém que se deixa instrumentalizar pela mente revolucionária que não é relativista, mas antes inverte o sentido da ética e da moral cristãs.

  • Aquela jovem relativista está impossibilitada de criticar o comportamento e as ideias da ministra. O relativismo torna impossível a crítica ao comportamento e às ideias que ditam o comportamento das outras pessoas, na medida em que se acredita na ideia de que a moralidade é uma questão de definição pessoal.


  • Na medida em que aquela jovem é relativista, ela não pode acreditar que o “mal” existe. Para que uma jovem relativista seja coerente, o Holocausto foi uma opção dos nazis com a qual podemos até concordar ou não no nosso íntimo, mas não temos o direito de criticar os responsáveis pelo Holocausto.


  • Os conceitos de “culpa” e de “recompensa moral” não existem para a jovem relativista, na medida em que não existe uma bitola moral através da qual ela possa fazer juízos de valor. Quando a jovem critica a ministra fá-lo por um egoísmo incrustado e não porque tenha alguma noção da existência de “culpa” da ministra. Na ausência de absolutos morais, a culpa não existe senão quando alguém belisca os nossos interesses, isto é, o relativista recusa sempre a culpa e reclama sistematicamente a recompensa moral, porque o relativista é essencialmente um egoísta inveterado.


  • Aquela jovem não tem o direito de dizer que a ministra é justa ou injusta. Para uma relativista, a justiça não pode existir porque não existe culpa. A ausência de culpa moral passa a contaminar a própria Lei ordinária de uma sociedade (o Direito Positivo), e o Democídio surge como consequência dessa contaminação.
    Na sequência da ausência de culpa moral, surge o divórcio socretino “sem culpa” ― e aqui temos um exemplo de como o relativismo moral contamina o Direito. Passo a passo, e por via do relativismo moral como instrumento de acção política, toda a influência da moral cristã do nosso Direito Positivo vai sendo substituída por um Direito subjectivo que só serve (ainda mais do que já acontece) as elites e os poderosos.


  • Aquela jovem está impedida, pela sua própria natureza, de evoluir do ponto de vista moral. A vida dela é como a água estagnada num charco, água que não corre e, por isso, não aproveita ninguém. Sem objectivos morais, ela constrói o seu mundo solitário e egoísta dissociado da sociedade em que vive.


  • Uma relativista não consegue discutir a Moral. Por isso é que a jovem fugiu à conversa. Para a relativista, a discussão sobre os méritos e deméritos nunca se faz de uma forma abstracta e impessoal. Quando a jovem critica a ministra, critica-a por razões pessoais e não porque não concorde, de uma forma abstracta, impessoal e generalizada, com o comportamento e ideias que caracterizam a ministra como poderiam caracterizar outra pessoa qualquer ― isto é, se o mesmo comportamento incongruente e teimoso no erro da ministra fosse adoptado pelo vizinho da jovem, esta já não o criticaria porque não mexeria com a vida dela. Na medida em que a moral relativista é subjectiva, a jovem relativista vive em silêncio, ignorando o mundo em seu redor, a não ser que lhe pisem os calos.


  • A jovem relativista não pode ser tolerante. Passa muitas vezes a ideia errada de que a “tolerância” é uma característica do relativismo moral ― isto é, pretende-se fazer passar a ideia de que “a moral é individual” e por isso, embora toleremos os pontos-de-vista dos outros, não temos o direito de julgar comportamentos e atitudes.
    Contudo, este princípio relativista que define a “tolerância” cai numa contradição insanável: se não existem regras morais universais, não pode existir uma regra que exija a “tolerância” como um princípio moral ― a própria obrigação moral de ser “tolerante” viola as regras morais do relativismo. Se não existem absolutos morais, não faz sentido nenhum ser tolerante.


Download deste artigo em PDF Ler mais......

Segunda-feira, 10 de Novembro de 2008

Segredos e mentiras sem fim

Segredos e mentiras sem fim

«O juiz federal Richard Barclay Surrick rejeitou o pedido do advogado democrata Philip J. Berg para que intimasse Barack Hussein Obama a apresentar sua certidão de nascimento original. A sentença baseou-se em dois argumentos: (1) pela lei americana, nada autoriza o simples eleitor a questionar a elegibilidade de um candidato presidencial; (2) Berg peticionou como simples eleitor, não como vítima, já que não comprovou qualquer dano pessoal sofrido em razão da candidatura Obama.

A Constituição americana determina que só cidadãos americanos natos têm o direito de concorrer à presidência, mas esse permanece um direito sem garantia nenhuma: por incrível que pareça, não há nenhuma instituição incumbida de exigir prova de nacionalidade dos candidatos. Se ao simples eleitor é também negado esse direito, aquele artigo da Constituição está virtualmente revogado.




Berg anunciou que vai recorrer à Suprema Corte: “O que está em questão é saber quem tem legitimidade para impor a obediência à Constituição. Se eu não tenho, se você não tem, se o seu vizinho não tem legitimidade para questionar a elegibilidade de um indivíduo à presidência dos EUA, então quem tem? Assim qualquer um pode simplesmente se afirmar elegível para o Congresso ou para a presidência sem que ninguém possa questionar o seu estatuto legal, a sua idade ou a sua cidadania.”

Enquanto isso, todos os canais possíveis para se averiguar a nacionalidade de Obama estão meticulosamente bloqueados. A governadora do Havaí, Linda Lingle, colocou a certidão de nascimento dele sob guarda do Estado, para que ninguém tivesse acesso ao documento sem autorização do próprio Obama ou de seus familiares. O mesmo fez o governo do Quênia com todo e qualquer documento referente a Obama, logo após expulsar do território queniano o repórter Jerome Corsi que estava ali investigando as atividades do candidato em prol do genocida Raila Odinga.

Obama pessoalmente proibiu que todas as entidades detentoras de seus documentos os divulgassem sob qualquer maneira que fosse. Eis a lista dos papéis que permanecem secretos (v. NewsMax.com):

1) Registros médicos.

2) Correspondência enviada e recebida pelo seu gabinete no Senado.

3) Agenda dos encontros e demais compromissos atendidos por ele no Senado.

4) Lista dos clientes do seu escritorio de advocacia e recibos dos respectivos pagamentos.

5) Histórico escolar do Occidental College, onde ele estudou por dois anos.

6) Histórico de seus estudos na Columbia University.

7) Histórico de seus estudos na Faculdade de Direito de Harvard.

8) Sua tese de doutoramento em Columbia.

9) Seu comprovante de registro na Ordem dos Advogados de Illinois.

10) Lista dos clientes que ele representou como advogado na firma Davis, Miner, Barnhill & Gallard (solicitado a apresentá-la, Obama forneceu em vez disso a lista de todos os clientes da firma, tornando impossível saber quais ele representava pessoalmente).

11) Lista das contribuições de menos de duzentos dólares oferecidas à sua campanha (essas contribuições somam mais de 63 milhões de dólares e, segundo repórteres que puderam espiar por instantes algumas páginas da lista no escritório de Obama, incluem doadores como Fred Simpson, Mickey Mouse e Family Guy).

12) Certidão de nascimento original ou cópia autenticada.

Não é preciso dizer que nenhum outro candidato presidencial jamais negou ao público os documentos equivalentes. O bloqueio torna-se ainda mais suspeito porque vários pontos essenciais da biografia de Obama estão cheios de contradições.

1) Sua avó paterna assegura que estava presente na sala de parto quando ele nasceu num hospital em Mombasa, Quênia. Ele assegura que nasceu em Honolulu, Havaí, mas ele e sua irmã dão os nomes de dois hospitais diferentes onde isso teria acontecido.

2) Ele viajou para o Paquistão quando a entrada de americanos era proibida nesse país. Usou portanto um passaporte estrangeiro, quase certamente o da Indonésia, onde ele viveu e estudou numa época em que, estando o país em guerra, só crianças de nacionalidade indonésia eram aceitas nas escolas. Mais ainda, a lei indonésia não aceitava dupla nacionalidade, de modo que para Obama tornar-se cidadão indonésio ele teve de renunciar (por meio de seu pai) à nacionalidade americana, só podendo portanto voltar aos EUA como imigrante.

3) Obama afirmou várias vezes que jamais pertencera a um partido socialista. Os documentos do New Party provam que ele mentiu (v. AmericanThinker.com).

4) Obama disse que não tinha qualquer ligação com a Acorn, ONG responsável pela maior derrama de títulos de eleitor falsos já ocorrida nos EUA. Documentos e vídeos da Acorn provam que ele mentiu (v. NationalReview.com, www.youtube.com/watch?v=8vJcVgJhNaU e www.youtube.com/watch?v=7NmaZIdz6Vo).

5) Obama disse que não tivera nenhuma conexão política com o terrorista William Ayers. Documentos liberados pela Universidade de Illinois provam que ambos trabalharam juntos em projetos destinados a subsidiar organizações esquerdistas (v. MichelleMalkin.com).

6) Ele disse que jamais soubera das idéias políticas do pastor Jeremiah Wright, mas como é possível ouvir todas as semanas durante vinte anos as pregações de um pastor que praticamente só fala de política, sem ficar sabendo do que ele pensa a respeito?

Além das mentiras patentes, há os fatos nebulosos e mal explicados. Como Obama conseguiu viajar para o Paquistão quando a entrada de americanos era proibida no país? Por que ele jamais contou que é primo de Raila Odinga nem admite divulgar os documentos das atividades que desempenhou em favor desse assassino? Por que o agitador racista Khalid al-Mansour pagou os estudos de Obama em Harvard? Como pode Obama afirmar que não foi educado numa família muçulmana, se os documentos mostram que até numa escola católica, na Indonésia, ele se registrou como muçulmano? Por que, ao saber que alguém abrira um processo no Havaí solicitando a divulgação da sua certidão de nascimento, Obama repentinamente se lembrou de que sua avó estava doente em Honolulu – uma semana depois de ela ter saído do hospital – e, correndo para visitá-la sob a alegação de que talvez fosse sua última oportunidade de encontrá-la com vida, não levou junto a mulher e os filhos mas uma equipe de advogados?

Para completar, há uma quantidade estonteante de pequenas mentiras, todas proferidas com aquela desenvoltura que, nos mitômanos, substitui a sinceridade, às vezes com vantagem: a história do tio que libertou os prisioneiros de Auschwitz (as tropas americanas nunca entraram lá), o pai pastor de cabras (só se as criou no escritório onde trabalhava), a balela de que jamais aceitou contribuições de companhias de petróleo (esqueceu a Exxon e a Shell), a conversa mole de que foi membro do Comitê de Bancos do Senado (jamais esteve lá), etc. etc. A coisa não tem mais fim. É alucinante (v. http://theobamafile.com/ObamaLies.htm).

São só alguns exemplos, colhidos a esmo entre centenas. Nenhum desses fatos foi jamais eficazmente contestado, nem as perguntas daí decorrentes respondidas por quem quer que fosse. No entanto, qualquer dúvida quanto à nacionalidade de Obama ou à autenticidade da sua biografia de campanha é instantaneamente rotulada de “teoria da conspiração” e impugnada como absurda pela grande mídia em peso, como se esta mesma não ignorasse as respostas tanto quanto as ignora o resto da população.

Jamais, na história americana, um candidato presidencial com uma conduta tão nebulosa, extravagante e suspeita teve segredos tão bem guardados quanto os de Barack Obama, nem tanta gente importante empenhada em resguardar seu direito de guardá-los. A privacidade de Obama – a privacidade de um homem público – está acima da própria Constituição americana. Acreditar em Obama sem provas tornou-se obrigação incontornável, e questionar essa obrigação é sinal de racismo.

Tal como no Brasil uma gigantesca operação-sumiço elegeu e reelegeu Lula impedindo que a população soubesse de suas atividades no Foro de São Paulo, um esquema de ocultação mais vasto ainda foi montado para eleger Barack Obama. Com notável hipocrisia os esquerdistas de ambos os países clamam contra a “crescente concentração da mídia”, na verdade uma bênção para eles, sem qual jamais teriam podido bloquear o acesso às notícias que vão contra o seu interesse.

No caso de Obama, o quadro da mais notável fraude eleitoral de todos os tempos é completado pela chantagem racial, pela distribuição maciça de títulos de eleitor falsos e pelo uso generalizado da intimidação e da agressão moral e física que transforma esta eleição americana numa palhaçada de Terceiro Mundo (vejam: TimesOnline, Breitbart.tv, HeraldOnline.com, InYork e WorldNetDaily.com).»

Texto de Olavo de Carvalho



Ler mais......

Quinta-feira, 6 de Novembro de 2008

Conservadorismo (2)

“Superar” é “conservar”; é herdar, e depois, acrescentar. Se o nosso pensamento não repensasse Descartes, e se este não tivesse repensado Aristóteles, o nosso pensamento seria primitivo. Portanto, “superar” é um continuum dinâmico que supera, conservando.

O que a Esquerda faz é exactamente o contrário disto: pretende “superar” sem “conservar”, e o resultado é que a Esquerda acaba por não superar nada e antes cria rupturas a vários níveis na sociedade, isto é, não superam nada e criam indeléveis traumas sociais de que os nossos filhos e netos terão que pagar a “factura” no futuro; foi assim com o estalinismo e com o nazismo (ambos de Esquerda), cujas “facturas” estamos a pagar agora. A esta ideia radical, segundo a qual é possível “superar” sem “conservar”, chamamos de “presentismo”.

O presentismo é uma característica da nova Esquerda europeia ― aquela esquerda post-estalinista ― e está ligado directamente ao marxismo cultural ou “politicamente correcto” ― que foi o que restou do marxismo-leninismo. E foi esse presentismo europeu que foi exportado para os Estados Unidos com a vitória de Obama.


O marxismo introduziu a desconstrução negativa da História (tentando “superar” sem “conservar”), e o existencialismo ― que se constituiu como a fase de putrefacção do marxismo ― abriu caminho à afirmação e enraizamento do marxismo cultural na nossa sociedade, e de tal forma, que até gente que se diz de “direita” adopta inconscientemente mecanismos do pensamento politicamente correcto.

Uma das características do presentismo é a negação da História. A História europeia ou não existe, ou é um chorrilho de mentiras, ou é uma abominação ― a História é um “mal” que convém eliminar da nossa memória colectiva. Desta ideia surgiu o conceito presentista de “Leis de Memória”, que censuram os historiadores “incorrectos”.

Porém, esta negação da História não é feita para tentar proteger um ideal nacional ― como o fazem os turcos com a negação do genocídio arménio. A negação presentista da História é feita de uma forma abstracta ― generalista ― em nome de uma concepção de futuro que se “deseja”, e está directamente ligada à noção de “desejo do devir” existencialista, mais tarde levada ao absurdo por Derrida e por Gilles Deleuze: a ideia de que o passado não tem a menor importância senão para justificar o futuro, e o presente nada mais é do que a preparação sistemática e constante desse futuro. Portanto, para o presentista, o passado é um inimigo fidagal.

Um caso concreto de uma “Lei de Memória” foi a lei francesa de 2001 que considerou a escravatura como um “crime contra a humanidade”, e que definiu que quem defendesse a escravatura seria punido com três anos de prisão. Quando um historiador francês, Olivier Grenouilleau, fez um estudo sobre a escravatura praticada entre as etnias africanas, e no qual afirmava Grenouilleau que a escravatura africana era cronologicamente anterior à escravatura perpetrada pelos europeus, um grupo de cidadãos franceses levantou um processo judicial contra Olivier Grenouilleau, com a acusação de este incorria num crime de “negação de um crime contra a humanidade” ao dizer que a escravatura entre pretos era anterior à escravatura de pretos por brancos. A verdade é que Grenouilleau tinha razão: muito antes dos europeus, já negros faziam escravos de outros negros. Mas os factos históricos não interessam aos presentistas do esquerdalho anti-europeu.

Muito antes dos europeus, os árabes islâmicos faziam escravos negros em África que traficavam para diversos pontos do globo. Contudo, o presentismo concentra a sua atenção exclusivamente na História europeia, porque o que se pretende é a destruição de um conjunto de valores culturais herdados da civilização europeia.

Muitos outros casos de presentismo anti-Europa deram lugar a uma espécie de negociação presentista: “Tudo bem! Eu até aceito o genocídio turco na Arménia se tu aceitares a fome estalinista na Ucrânia!” Contudo, os presentistas europeus parecem ignorar que, por exemplo em 1256 ― e sem as armas sofisticadas da Idade Moderna mas somente a fio-de-espada ― os mongóis fizeram 1 milhão de mortos na Pérsia, pondo fim ao califado dos Abássidas. Como os mongóis não eram “brancos”, o esquerdalho presentista já não sente a necessidade de instituir “Leis de Memória” que se apliquem neste caso, como noutros.

Aquilo que a História teve de positivo e de negativo, é para “conservar”, recordando, e para “superar” divulgando sem tabus exclusivistas e racistas de sinal contrário, pesquisando e deixando os técnicos pesquisarem sem complexos; as provas históricas devem ser descobertas, devem vir a público, testadas na sua veracidade, em liberdade, e encaradas simplesmente como parte de um processo histórico, sem conotações políticas à mistura. É isto que faz o Conservadorismo, mesmo que sujeito à repressão política do esquerdalho: superar, conservando.
Ler mais......

Terça-feira, 4 de Novembro de 2008

A ciência dogmática

Recentemente surgiu a notícia de que um biólogo americano afirmou categoricamente que “Deus é um produto do cérebro humano”. Esta proposição é dogmática, e por isso, não é científica. É preciso que as pessoas comecem a ganhar consciência de que existe hoje uma “ciência dogmática”.

A proposição “Deus é um produto do cérebro humano, e por isso, não existe” é dogmática porque a ciência não pode provar a não-existência do que quer que seja ― e principalmente a biologia que segue um princípio tosco de indução e com pouca dedução. A proposição referida é uma crença, e nada mais do que uma crença. A ciência só pode provar que “existe algo”, e nunca pode fazer prova de que “algo não existe”. Desafio o biólogo tosco (ou outro qualquer da nossa praça) a provar-me que as sereias não existem; o que ele me pode dizer é que não foi encontrada nenhuma sereia até hoje, o que não significa que isso seja a prova científica de que as sereias não existem.

E mesmo que fosse provado pela ciência que algo parecido com “Deus” é produto do cérebro humano, isso não significaria absolutamente nada senão o facto da ciência provar a existência de uma determinada excrescência psicológica (a tal ciência que prova que “existe algo”), que é independente da existência ou não de Deus (que a ciência não consegue provar que não existe). Segundo o biólogo em causa, a sua (dele) mente “produz” o seu (dele) “deus” exactamente como o seu (dele) intestino grosso enforma as suas (dele) fezes; o problema é dele, e se o ideal divino dele é cagativo, a verdade é que a prova ontológica não tem nada a ver com isso. A subjectividade do biólogo em causa não é mais do que isso mesmo: subjectividade.

A “vida” não é o que se passa nas células, nas funções somáticas, na digestão e na cagação do biólogo, no sistema nervoso dele e nas suas disfunções, etc. Todas essas coisas biológicas são realidades hipotéticas construídas pela Ciência Biológica que nada mais é do que uma das muitas actividades de função de perspectiva do mundo, que faz parte da “vida” de quem a estuda e investiga ― essas coisas biológicas são apenas um detalhe e um conjunto de ingredientes entre incontáveis que achamos ante nós em função do que é realmente a vida e o universo.

Publicado em simultâneo no Perspectivas Ler mais......

Quinta-feira, 30 de Outubro de 2008

Conservadorismo (1)


Baixar PDF

O mundo é marcado e dividido por ideologias políticas, o que se reflecte na existência de partidos políticos que espelham, até certo ponto, a realidade das diferentes ideologias. Nesse mundo fragmentado sob o ponto de vista ideológico-político, o Conservadorismo ― que na minha opinião não é uma ideologia política no sentido vulgar ― foi até há bem pouco tempo considerado decadente e anacrónico pelos ideólogos e analistas políticos. Não sendo o Conservadorismo uma ideologia política propriamente dita ― contrariando a maioria das opiniões nesta matéria ― tem sido, porém, erroneamente considerado como uma “anti-ideologia” pelos ideólogos políticos modernistas, e principalmente pelos pós-modernistas. A verdade é que o Conservadorismo também não é uma “anti-ideologia”, como se verá mais adiante.


Gosto da seguinte definição de Conservadorismo: é uma “moral política”; sendo uma “moral política”, não é contudo uma “política da moral”, isto é, existe no Conservadorismo uma predominância da ética e da moral sobre a política, porque a ideologia política nunca pode definir a ética, embora tenda sempre a submetê-la, na medida em que toda a ideologia política tende para um totalitarismo. Não sendo o Conservadorismo uma ideologia política, não pode assumir tendências totalitárias: um conservador pode votar em diversos partidos políticos dependendo da conjuntura política, e é essencialmente independente do ponto de vista partidário. Um conservador é um “livre pensador” na medida em que não está comprometido com nenhuma ideologia política, embora aceite melhor e por uma questão de princípios, determinadas ideologias, do que outras.

Assim, para um conservador, o espírito humano tem primazia sobre os aspectos económicos definidos pelas ideologias políticas: para o conservador, o espírito tem primazia sobre a matéria, a política sobre a economia e o dinheiro, ao contrário ― por exemplo ― do neoliberal que defende nitidamente o primado da economia sobre a política.

Para um conservador europeu, e ocidental em geral, a ética de que se fala aqui é a única passível de ter esse nome na Europa: é a ética que fundou a civilização europeia desde a Antiga Grécia, que passou pelo Império Romano e que evoluiu até meados do século XIX da nossa era (a partir de 1840, sensivelmente, a filosofia que molda a ética estagnou e involuiu mesmo, passando então a ética a ser anulada por uma visão utilitarista da política que marca um período negro de uma versão burguesa e cientificista da civilização europeia que se prolonga até hoje) e que foi sofrendo uma evolução consentânea com princípios cristãos que marcaram a nossa civilização. Naturalmente que essa ética que o Conservadorismo defende é uma ética cristã, porque não existe ética coerente sem uma religião ― seja ela um monoteísmo, um deísmo, um politeísmo ou um monismo religioso como é o Naturalismo. A pseudo-ética ateísta e libertária é uma ética presentista que se baseia em resquícios culturais do Cristianismo ainda presentes na sociedade europeia, e que tendendo a desaparecer, será inexoravelmente substituída por outra ética religiosa (a ética islâmica, por exemplo) com o passar das gerações. O conservador europeu opõe-se a esta substituição religiosa e mantém o Cristianismo como “a religião da Europa”.

O Conservadorismo é uma visão histórica da sociedade que se projecta no presente e esboça o futuro, e que se espelha no nacionalismo integral e espiritual de Teixeira de Pascoaes e não num mero nacionalismo tradicionalista. Neste sentido, a Europa é uma “Europa das nações” e não um leviatão europeu presentista e construído a partir de uma obliteração revolucionária da História.

A ideia ― propalada pelos seus detractores ― de que o Conservadorismo é incompatível com a democracia e de que é uma aristocracia (no sentido dado por Platão), para além de falsa, é hipócrita. Existe hoje uma aristocracia composta por ditos “libertários de esquerda” no nosso país, o que revela a hipocrisia de quem condena uma ideia política, adoptando-a. A existência de uma aristocracia não agrilhoa o Conservadorismo a uma determinada visão passadista da História, nem se pode dizer que o Conservadorismo seja mais “aristocrático” do que outra forma qualquer de estar na vida e de encarar a política.

Não sendo uma ideologia política “tout cours”, o Conservadorismo é “uma forma de estar” no mundo, é uma filosofia de vida e uma determinada maneira de encarar a Vida e o Universo.
Todo o ser humano, no seu estado normal de equilíbrio psicológico, é um conservador, independentemente da sua geração e sua faixa etária, porque em cada sociedade coexistem três gerações: os jovens, os maduros e os “maiores” ― para utilizar uma expressão espanhola deliciosa, que substitui “viejos” por “mayores”. Estas três gerações coexistindo significam que qualquer actualidade tem três tempos distintos e que qualquer presente é enriquecido por três dimensões vitais distintas, coexistindo as três gerações em essencial “hostilidade conservadora” ― cada uma delas tentando “conservar” os seus valores. O jovem pretende conservar a sua visão do mundo que se distingue da visão conservadora do mundo de um homem maduro, mas esse jovem será um conservador “maior” quando atingir a terceira idade. O que o Conservadorismo faz é a síntese dessa visão conservadora vital tridimensional e multi-geracional presente na sociedade, tendo em conta a análise histórica que determina quais os elementos culturais, sociais e humanos que devem ser conservados para que possam conduzir a uma melhoria de vida da esmagadora maioria da população. Ao contrário disto, o Libertarismo destaca e separa as gerações uma das outras, não criando uma ligação entre as três gerações, antes tentando minar qualquer visão holística e global da sociedade, utilizando para tal fim, a mente revolucionária.




Utilizando uma metáfora para marcar diferenças

A ideologia está para a política e para a sociedade, como a Ciência está para o Universo. A ciência cria um objecto compartimentado a que se dedica, e toda a visão de uma determinada ciência parte da análise desse objecto que elegeu como essência da sua acção de análise. Embora cada vez mais as ciências cruzem informações e experiências entre si, a verdade é que a especialização em determinadas áreas confere às ciências uma visão de perspectiva a partir das áreas a que se dedicam.

Em contraponto, o Conservadorismo está para a política e para a sociedade, como a Filosofia está para o Universo. O Conservadorismo parte de uma análise global da sociedade, e não de uma análise de perspectiva como faz a ideologia política. Neste sentido, o Conservadorismo parte sempre de uma posição de cepticismo em relação aos dados que dispõe relativos à sociedade e que lhe são colocados, isto é, o conservador começa por duvidar, para depois, em função de evidências que comprovem determinadas teorias como estando de acordo maioritário com a Natureza, adoptar posições políticas que podem coincidir (ou não) circunstancialmente com uma ou diversas ideologias políticas em presença. Não há uma verdade teorética mais qualificada do que a verdade fundada na evidência ― este é o lema do conservador. Portanto, a função do Conservadorismo é a resolução de “problemas teóricos” globais que se colocam à sociedade, ao contrário da ideologia política que se compromete na resolução de “problemas práticos” a partir de uma determinada perspectiva ou ângulo de visão. Enquanto que o Conservadorismo é “filosófico”, a ideologia é (regra geral) “científica” (entre comas).

Naturalmente que a ideologia política, como o faz a ciência, também duvida antes de afirmar uma “verdade”. Contudo, a “verdade” ideológica é uma verdade parcial determinada a partir de um ponto-de-vista específico. Resolvendo “problemas práticos”, a ideologia política tende a transformar aquilo que não é naquilo que é ou que tem forçosamente que passar a ser ― muitas vezes mesmo que isso vá contra a própria natureza das coisas ― e tal como acontece com as teorias científicas, esta atitude da ideologia política pode levar a erros de interpretação da realidade sociológica (e ontológica) que, por vezes, demoram décadas a serem corrigidos por novas teorias, e podem causar hecatombes humanas inenarráveis.

A ideologia política (em termos modernos) nasceu com o Positivismo da Revolução Francesa, e tal como o Positivismo, reduz a realidade ao “sensível” ― a ideologia política pertence à realidade social “sensível”, e acaba por isso por incorrer muitas vezes num fenómeno de “circulus in demonstrando”, que consiste em que as teorias políticas partem muitas vezes de princípios que deveriam provar como evidências antes de os adoptar como objecto de acção. Para a ideologia política, nada existe para além daquilo que lhe é “presente”, e por “presente” entende a ideologia política o que é “sensível” em termos sociais, aliando a “presença” dos factos (objectos) que compõem a realidade aos fenómenos “sensíveis” dessa realidade.

Contudo, o facto de algo “ser sensível” e o facto de outro algo “ser presente” são ideias muito diferentes. A “presença” (ou “representação”) refere-se a um modo de estar do Homem perante os objectos, presentes, imediatos, e /ou em oposição a outros modos de estar dos objectos em relação a nós próprios (representados em relação a um observador externo). A “sensibilidade” relaciona os objectos uns com outros, sem que se estabeleça necessariamente uma relação universal entre os objectos e divorcia-se de qualquer relação desses objectos, em geral, com um observador externo. O mundo “sensível” é o mundo das relações entre os objectos; o mundo “representado” (“presença”) passa por uma visão exterior (holística) do mundo dos objectos que interagem.

Por exemplo, o futuro de uma sociedade não é uma coisa “sensível”, mas a sua “presença” imediata é irrefutável. A ideologia política parte para uma concepção de “futuro” baseada na realidade “sensível” objectiva, na relação entre os objectos sociais passados que se projectam no presente e no futuro, enquanto que um conservador analisa a sociedade a partir de um ponto espacial e temporal exterior à própria sociedade, analisando “a partir de fora” os objectos em “presença”.

Naturalmente que todos nós sabemos que a ideologia política não é ciência, tal como a Teoria da Falsibilidade de Karl Popper demonstrou em relação ao Marxismo. Ando aqui em simples analogia; nada como a utilização de comparações mais ou menos absurdas para que nos façamos entender, porque o absurdo chama-nos à atenção para o que é lógico, despertando, assim, o nosso espírito crítico. E tanto assim é, que a ideologia política acaba por ser menos racional do que o Conservadorismo (que não é uma ideologia política em sentido estrito), porque enquanto que o conservador parte do princípio da “dúvida total” cartesiana e ontológica em relação à “realidade” e à mudança dessa realidade, o ideólogo político constrói uma teoria tendo como base o mundo “sensível” e acredita na validade e supremacia de uma determinada teoria em detrimento de outras, baseando-se numa visão de perspectiva e desprovida de quaisquer dúvidas. O teórico da ideologia política nunca tem dúvidas; o conservador faz da dúvida o seu método de análise do mundo.




A importância da História e da Religião no Conservadorismo

Nem todos os conservadores são religiosos praticantes, mas todos estão de acordo em relação à importância da religião para a consistência e continuidade da nossa civilização. A religião confere à sociedade a Ordem Moral necessária, e pese embora existam sempre agnósticos e não praticantes, a religião como princípio de ordem moral deve ser sempre maioritária na sociedade. Por isso, o conservador pensa que o Estado laico só o deve ser por respeito às diversas confissões religiosas em presença (incluindo o ateísmo), e não assumindo nunca uma atitude anti-religiosa. A partir do momento em que o Estado laico se torna anti-religioso, contribui activamente para a dissolução do combustível moral da sociedade, retirando à sociedade a possibilidade de auto-regeneração, para além de se divorciar do espírito maioritário presente numa sociedade em que a religião ainda mantém o seu papel de princípio de ordem moral, tanto no senso-comum (direito natural) como no espírito do Direito Positivo.

Para o conservador, a História não se resume a um processo dialéctico conforme preconizado por Hegel, de cujas ideias nasceram todas as ideologias políticas contemporâneas. Os Neo-conservadores americanos, também conhecido por “neocons”, adoptam também o princípio hegeliano que vê a História como um processo dialéctico que conduz a sociedade rumo à perfeição e à extirpação de todo o “mal”. Por isso, a confusão entre os neocons e os conservadores não faz sentido, na medida em que aqueles se aproximam muito mais dos utópicos libertários de esquerda, herdeiros da esquerda hegeliana, do que propriamente do conservadorismo. Para o conservador, todas as correntes de pensamento, não tendo necessariamente igual peso histórico e ideológico, têm contudo uma importância equivalente (embora não iguais) para que a História seja compreendida no seu todo ― assumindo assim uma visão holística e “representada” da História. Neste sentido, o conservador é um céptico que faz equivaler as diversas correntes de pensamento existentes ao longo da História; não é um céptico porque não acredita em nada: é um céptico porque acredita que todas as correntes filosóficas têm um peso especifico, e portanto, nenhuma delas é a eleita. Ora isto é exactamente o contrário do que faz a ideologia política.

Por isso, e ao contrário do que é propalado pelo Libertarismo, o conservador não é um fideísta religioso, isto é, alguém que repudia a razão. Ao contrário dos conservadores, os fideístas partilham uma visão sectária e de perspectiva exclusivista da sociedade e do mundo, e por isso, inserem-se dentro de uma lógica de ideologia política. Por exemplo, os extremistas islâmicos são fideístas, e o fundamentalismo islâmico é mais uma ideologia política do que uma visão conservadora da sociedade e do universo. Pelo contrário, o conservador considera a razão e a ciência como uma parte da verdade humana, embora não as considere ambas exclusivas, como o faz o cientificismo.

Ao recusar como princípios absolutos da realidade, o fideísmo fanático e o cientificismo ― que de tão racionalista se torna irracional e dogmático ―, o conservador não necessita, por esse facto, de negar a existência de uma ordem moral inerente a essa mesma realidade. Os conservadores dão uma atenção equivalente à falibilidade humana e aos esforços para ultrapassar essa falibilidade. Nesse sentido, o conservador adopta o princípio filosófico de que o Universo é “Tudo O Que Há”, e não necessariamente “Tudo o que Existe”, porque tudo o que existe limita o Universo àquilo que conhecemos já, enquanto que “o Tudo O Que Há” abrange a noção de Universo a tudo aquilo que conhecemos e também a tudo aquilo que ainda não conhecemos. Por isso, o conservador está aberto à religião revelada como uma manifestação desse Universo de “Tudo O Que Há”, embora o cientificismo e algumas ideologias políticas afirmem que Deus não existe porque defendem o primado do mundo “sensível” ― Tudo o que Existe ― sobre uma visão holística e “representada” do universo (Tudo O Que Há).

A primeira certeza que o ser humano adquire é a de que pensa (princípio do “cogito”). Portanto, a primeira certeza humana é subjectiva ― a verdade primeira acerca do real é a de que o pensamento existe, “cogitatio est”. Por isso, a realidade subjectiva de cada ser humano é tida em conta pelo conservador, em equivalência com a realidade objectiva definida pelo racionalismo ― não existe necessariamente uma supremacia valorativa e sistemática de uma em relação à outra. Se os objectos existem na Natureza independentemente do pensamento humano, a possibilidade da existência de um “pensamento universal” adquire uma probabilidade elevada a partir do princípio cartesiano do “cogito” ― como defende hoje a própria filosofia quântica.

(a continuar)

Ler mais......

Domingo, 26 de Outubro de 2008

Problema prático e o problema teórico

O "problema prático" consiste em fazer com que aquilo que não é por natureza, passe a ser, porque convém que seja: aquilo que não é na realidade, passa a ser por uma atitude mental em que se projecta uma modificação do real, dando-lhe um ser que não existe (não é) porque convém que a realidade tal como é, não seja.

O "problema teórico" consiste em fazer com que aquilo que é (aquilo que existe) passe a não ser ― o que irrita o intelecto utilitarista pela sua insuficiência. Ler mais......