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sábado, 15 de novembro de 2008

O relativismo moral, o egoísmo e a ministra


Em conversa com uma pessoa muito mais nova do que eu, veio à baila a reivindicação de adopção de crianças por duplas de homossexuais. “Cada um sabe de si”, disse ela, “as opiniões são relativas e ninguém tem o direito de criticar os gays por quererem adoptar crianças”.

Logo a seguir, mudando de assunto, a minha interlocutora professora passou a criticar a ministra da educação. Naturalmente que quando criticamos as opções da ministra não podemos destacá-las das opções do ser humano que é a ministra; as políticas adoptadas pela ministra são consentidas pela pessoa que ela é. Por isso, é impossível dissociar uma pessoa das suas ideias e comportamentos.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Desejo e fé

Aquilo a que os filósofos desde a antiguidade clássica chamam de “desejo”, e que alguns pós-modernos ― como Gilles Deleuze ― celebraram nas suas contemplações, nada mais é do que uma fé conduzida pelo Homem para os objectos do mundo. O “desejo mundano” é uma fé transitória, impermanente e volúvel que não encontrou um caminho superior; a fé é o “desejo” definitivo, consciente e seguro dos seres humanos pela transcendência espiritual.

O “desejo” não é “razão”, não é “instinto”, não é “necessidade”, nem é “vontade”. É fé.

O ser humano distingue-se dos outros animais pela capacidade de “razão”, de compreensão das suas “necessidades”, pela condução dos seus “desejos” e pela sublimação dos seus “instintos”. Como não somos todos exactamente iguais, a manifestação do “desejo”, por parte de cada um de nós, faz-se de maneira diferente, consoante o nível de evolução em que nos encontremos.







Naturalmente que estou em desacordo com Espinosa e com Deleuze. Ambos afirmam que “não desejamos uma coisa porque é boa, mas julgamo-la boa porque a desejamos”. A isto, chamaram eles de “carácter positivo de desejo”, mas que no fundo, é o reforço negativo do subjectivismo do “desejo” que o confunde com o instinto, e que faz com que o “desejo” seja igualmente valorado em qualquer circunstância ― isto é, se ao desejarmos matar alguém e julgarmos esse acto como “sendo bom porque o desejamos”, então qualquer “desejo” fica assim justificado e validado sob o ponto de vista ético. Na medida em que a estética não pode ser desligada da ética, o “desejo”, que se identifica com a primeira, não pode ser separada da segunda.

Para além disso, a concepção de “desejo” de Espinosa e Deleuze é claramente um sofisma, que ademais se baseia na lógica aristotélica do “princípio da contradição” absoluta e no “princípio do terceiro excluído” (ou uma coisa, ou outra; “to be or not to be”) . Em alvedrio, eu diria que “desejamos uma coisa porque é boa e julgamo-la boa porque a desejamos” ― porque existe uma biunivocidade na relação entre as duas proposições. Em alternativa ao exclusivismo de Espinosa e Deleuze, o inclusivismo das duas proposições, para além de lógico, é muito mais positivo, mais criador e gerador de valor.





Contudo, é bom que se diga que os “desejos” que se manifestam por apetites e impulsos naturais de ordem física não estão em conflito com as realizações espirituais mais elevadas; pelo contrário, é através do “desejo” mundano que o ser humano poderá compreender o “desejo” supremo da fé que procura o caminho correcto para si, em determinado estádio da sua evolução. Assim como os “desejos” de uma determinada pessoa não são exactamente iguais aos “desejos” de outra, a fé de um não é igual à fé de outro. Porém, a subjectividade do “desejo” assim entendida tem uma lógica dialéctica objectiva (“dialéctica” não no sentido hegeliano da metáfora do “senhor e do escravo”, mas num sentido cósmico) ― existe um caminho que se trilha transpondo, e ultrapassando pela compreensão, as contradições da existência.

Por isso, existem dois extremos que bloqueiam a evolução espiritual do Homem: as mentes ignorantes, mal instruídas e tomadas por escrúpulos extremados, que não compreendem a verdadeira importância do papel do “desejo” mundano e físico na evolução espiritual, e as pessoas que entram em conflito com a natureza normal. Um homossexual por aculturação ― que recusa a sua natureza e contra ela se rebela ― e um moralista extremista ― que não compreende a natureza do “desejo” mundano como precursora do entendimento do “desejo transcendental” ― fazem parte do mesmo problema: não interiorizaram ainda a verdadeira natureza do “desejo” físico e o papel que este desempenha na evolução espiritual do Homem.
A aceitação do “desejo” físico e mundano de uma forma consentânea com a Natureza, promove, em si mesma, a evolução espiritual do ser humano; o excesso de escrúpulos moralistas (por exemplo, um fundamentalista religioso) e os desejos físicos desenfreados ou pouco naturais (por exemplo, o comportamento sexual promíscuo e obsessivo), são as duas vertentes do obstáculo que bloqueia o caminho do “desejo mundano” em concomitância com “desejo transcendental”, isto é, da fé.

Sob o ponto de vista da filosofia clássica, podemos definir o “desejo” como a busca de um objecto que se imagina ou que se sabe ser fonte de satisfação. Por isso, o “desejo” é acompanhado de um sentimento de falta ou de privação, isto é, de sofrimento. Por outro lado, o “desejo” mundano parece recusar a sua satisfação, pois mal ela é realizada, ele apressa-se a fazê-la renascer: o “desejo” mundano quer e não quer ser satisfeito, exactamente porque o objecto do “desejo” mundano não corresponde ao desejo transcendental e intrínseco do Homem. Porém, o “desejo” físico e mundano, quando é saudável e de acordo com o comportamento normal na natureza, é também necessário ao ser humano evolucionário: entre o desprendimento e a plenitude, o “desejo” é a busca; e a filosofia ― como “amor” à sabedoria ― tem origem no “desejo” mundano que se transforma, em muitos casos, em “desejo” transcendental” (fé).

Para Platão, se o “desejo” é essa carência radical, é porque exprime a nostalgia de um mundo divino e pleno; portanto, não sou eu que comparo a “fé” ao “desejo”: Platão já o tinha feito por outras palavras.




domingo, 25 de maio de 2008

As leis morais

"Life is what happens to you while you're busy making other plans." -- John Lennon



Todos os planos que fazemos para as nossas vidas, são feitos para falharem. Assim, também as regras morais existem já contando com as falhas humanas, porque se não existissem, a vida humana seria um fracasso completo.

Não podemos, para se justificar a corrupção dos costumes, exigir a perfeição ao nosso semelhante.