quinta-feira, 6 de novembro de 2008
Conservadorismo (2)
“Superar” é “conservar”; é herdar, e depois, acrescentar. Se o nosso pensamento não repensasse Descartes, e se este não tivesse repensado Aristóteles, o nosso pensamento seria primitivo. Portanto, “superar” é um continuum dinâmico que supera, conservando.
Etiquetas:
conservadorismo,
cultura,
marxismo cultural,
sociedade
terça-feira, 4 de novembro de 2008
A ciência dogmática
Recentemente surgiu a notícia de que um biólogo americano afirmou categoricamente que “Deus é um produto do cérebro humano”. Esta proposição é dogmática, e por isso, não é científica. É preciso que as pessoas comecem a ganhar consciência de que existe hoje uma “ciência dogmática”.
A proposição “Deus é um produto do cérebro humano, e por isso, não existe” é dogmática porque a ciência não pode provar a não-existência do que quer que seja ― e principalmente a biologia que segue um princípio tosco de indução e com pouca dedução. A proposição referida é uma crença, e nada mais do que uma crença. A ciência só pode provar que “existe algo”, e nunca pode fazer prova de que “algo não existe”. Desafio o biólogo tosco (ou outro qualquer da nossa praça) a provar-me que as sereias não existem; o que ele me pode dizer é que não foi encontrada nenhuma sereia até hoje, o que não significa que isso seja a prova científica de que as sereias não existem.
E mesmo que fosse provado pela ciência que algo parecido com “Deus” é produto do cérebro humano, isso não significaria absolutamente nada senão o facto da ciência provar a existência de uma determinada excrescência psicológica (a tal ciência que prova que “existe algo”), que é independente da existência ou não de Deus (que a ciência não consegue provar que não existe). Segundo o biólogo em causa, a sua (dele) mente “produz” o seu (dele) “deus” exactamente como o seu (dele) intestino grosso enforma as suas (dele) fezes; o problema é dele, e se o ideal divino dele é cagativo, a verdade é que a prova ontológica não tem nada a ver com isso. A subjectividade do biólogo em causa não é mais do que isso mesmo: subjectividade.
A “vida” não é o que se passa nas células, nas funções somáticas, na digestão e na cagação do biólogo, no sistema nervoso dele e nas suas disfunções, etc. Todas essas coisas biológicas são realidades hipotéticas construídas pela Ciência Biológica que nada mais é do que uma das muitas actividades de função de perspectiva do mundo, que faz parte da “vida” de quem a estuda e investiga ― essas coisas biológicas são apenas um detalhe e um conjunto de ingredientes entre incontáveis que achamos ante nós em função do que é realmente a vida e o universo.
Publicado em simultâneo no Perspectivas
A proposição “Deus é um produto do cérebro humano, e por isso, não existe” é dogmática porque a ciência não pode provar a não-existência do que quer que seja ― e principalmente a biologia que segue um princípio tosco de indução e com pouca dedução. A proposição referida é uma crença, e nada mais do que uma crença. A ciência só pode provar que “existe algo”, e nunca pode fazer prova de que “algo não existe”. Desafio o biólogo tosco (ou outro qualquer da nossa praça) a provar-me que as sereias não existem; o que ele me pode dizer é que não foi encontrada nenhuma sereia até hoje, o que não significa que isso seja a prova científica de que as sereias não existem.
E mesmo que fosse provado pela ciência que algo parecido com “Deus” é produto do cérebro humano, isso não significaria absolutamente nada senão o facto da ciência provar a existência de uma determinada excrescência psicológica (a tal ciência que prova que “existe algo”), que é independente da existência ou não de Deus (que a ciência não consegue provar que não existe). Segundo o biólogo em causa, a sua (dele) mente “produz” o seu (dele) “deus” exactamente como o seu (dele) intestino grosso enforma as suas (dele) fezes; o problema é dele, e se o ideal divino dele é cagativo, a verdade é que a prova ontológica não tem nada a ver com isso. A subjectividade do biólogo em causa não é mais do que isso mesmo: subjectividade.
A “vida” não é o que se passa nas células, nas funções somáticas, na digestão e na cagação do biólogo, no sistema nervoso dele e nas suas disfunções, etc. Todas essas coisas biológicas são realidades hipotéticas construídas pela Ciência Biológica que nada mais é do que uma das muitas actividades de função de perspectiva do mundo, que faz parte da “vida” de quem a estuda e investiga ― essas coisas biológicas são apenas um detalhe e um conjunto de ingredientes entre incontáveis que achamos ante nós em função do que é realmente a vida e o universo.
Publicado em simultâneo no Perspectivas
quinta-feira, 30 de outubro de 2008
Conservadorismo (1)
O mundo é marcado e dividido por ideologias políticas, o que se reflecte na existência de partidos políticos que espelham, até certo ponto, a realidade das diferentes ideologias. Nesse mundo fragmentado sob o ponto de vista ideológico-político, o Conservadorismo ― que na minha opinião não é uma ideologia política no sentido vulgar ― foi até há bem pouco tempo considerado decadente e anacrónico pelos ideólogos e analistas políticos. Não sendo o Conservadorismo uma ideologia política propriamente dita ― contrariando a maioria das opiniões nesta matéria ― tem sido, porém, erroneamente considerado como uma “anti-ideologia” pelos ideólogos políticos modernistas, e principalmente pelos pós-modernistas. A verdade é que o Conservadorismo também não é uma “anti-ideologia”, como se verá mais adiante.
Etiquetas:
conservadorismo,
cultura,
política,
sociedade
domingo, 26 de outubro de 2008
Problema prático e o problema teórico
O "problema prático" consiste em fazer com que aquilo que não é por natureza, passe a ser, porque convém que seja: aquilo que não é na realidade, passa a ser por uma atitude mental em que se projecta uma modificação do real, dando-lhe um ser que não existe (não é) porque convém que a realidade tal como é, não seja.
O "problema teórico" consiste em fazer com que aquilo que é (aquilo que existe) passe a não ser ― o que irrita o intelecto utilitarista pela sua insuficiência.
O "problema teórico" consiste em fazer com que aquilo que é (aquilo que existe) passe a não ser ― o que irrita o intelecto utilitarista pela sua insuficiência.
domingo, 12 de outubro de 2008
Muleta blogosférica
Informo que criei um "dicionário" de apoio ao blogue em http://sofos.wikidot.com.
domingo, 5 de outubro de 2008
Possível teste para um aluno universitário de Filosofia
Enunciado
Albert Einstein divulgou o seu conceito de simultaneidade de dois acontecimentos. Fez notar que a determinação da simultaneidade pressupõe uma transferência de informação da forma de um sinal a partir dos eventos em questão para um observador. Mas a transferência da informação de um ponto para outro demora um período finito de tempo. Assim, no caso de os eventos em questão ocorrerem em sistemas que se movimentam relativamente um ao outro, juízos de simultaneidade dependem de movimentos relativos dos sistemas e do observador. Dado um particular conjunto de movimentos, o observador José no sistema 1 pode ajuizar que o evento X no sistema 1 e o vento Y no sistema 2 são simultâneos. O observador João no sistema 2 pode ajuizar o contrário. E não existe nenhum ponto de observação eleito a partir do qual seja possível determinar que o José está correcto e que o João está errado ― ou vice-versa. Einstein concluiu que a simultaneidade é uma relação entre dois ou mais eventos e um observador, e não uma relação objectiva entre eventos.
Questão
Indique (pelo menos) um erro no raciocínio de Einstein.
Albert Einstein divulgou o seu conceito de simultaneidade de dois acontecimentos. Fez notar que a determinação da simultaneidade pressupõe uma transferência de informação da forma de um sinal a partir dos eventos em questão para um observador. Mas a transferência da informação de um ponto para outro demora um período finito de tempo. Assim, no caso de os eventos em questão ocorrerem em sistemas que se movimentam relativamente um ao outro, juízos de simultaneidade dependem de movimentos relativos dos sistemas e do observador. Dado um particular conjunto de movimentos, o observador José no sistema 1 pode ajuizar que o evento X no sistema 1 e o vento Y no sistema 2 são simultâneos. O observador João no sistema 2 pode ajuizar o contrário. E não existe nenhum ponto de observação eleito a partir do qual seja possível determinar que o José está correcto e que o João está errado ― ou vice-versa. Einstein concluiu que a simultaneidade é uma relação entre dois ou mais eventos e um observador, e não uma relação objectiva entre eventos.
Questão
Indique (pelo menos) um erro no raciocínio de Einstein.
quarta-feira, 1 de outubro de 2008
Só não concordo com a menção a Montaigne que não era um utilitarista
Texto de João Pereira Coutinho, jornalista.
«Não tenho filhos e tremo só de pensar. Os exemplos que vejo em volta não aconselham temeridades. Hordas de amigos constituem as respectivas proles e, apesar da benesse, não levam vidas descansadas. Pelo contrário: estão invariavelmente mergulhados numa angústia e numa ansiedade de contornos particularmente patológicos. Percebo porquê. Há cem ou duzentos anos, a vida dependia do berço, da posição social e da fortuna familiar. Hoje, não. A criança nasce, não numa família mas numa pista de atletismo, com as barreiras da praxe: jardim-escola aos três, natação aos quatro, lições de piano aos cinco, escola aos seis, e um exército de professores, explicadores, educadores e psicólogos, como se a criança fosse um potro de competição.
Eis a ideologia criminosa que se instalou definitivamente nas sociedades modernas: a vida não é para ser vivida, mas construída com sucessos pessoais e profissionais, uns atrás dos outros, em progressão geométrica para o infinito. É preciso o emprego de sonho, a casa de sonho, o maridinho de sonho, os amigos de sonho, as férias de sonho, os restaurantes de sonho.
Não admira que, até 2020, um terço da população mundial esteja a mamar forte no Prozac. É a velha história da cenoura e do burro: quanto mais temos, mais queremos. Quanto mais queremos, mais desesperamos. A meritocracia gera uma insatisfação insaciável que acabará por arrasar o mais leve traço de humanidade. O que não deixa de ser uma lástima.
Se as pessoas voltassem a ler os clássicos, sobretudo Montaigne, saberiam que o fim último da vida não é a excelência, mas sim a felicidade!»
«Não tenho filhos e tremo só de pensar. Os exemplos que vejo em volta não aconselham temeridades. Hordas de amigos constituem as respectivas proles e, apesar da benesse, não levam vidas descansadas. Pelo contrário: estão invariavelmente mergulhados numa angústia e numa ansiedade de contornos particularmente patológicos. Percebo porquê. Há cem ou duzentos anos, a vida dependia do berço, da posição social e da fortuna familiar. Hoje, não. A criança nasce, não numa família mas numa pista de atletismo, com as barreiras da praxe: jardim-escola aos três, natação aos quatro, lições de piano aos cinco, escola aos seis, e um exército de professores, explicadores, educadores e psicólogos, como se a criança fosse um potro de competição.
Eis a ideologia criminosa que se instalou definitivamente nas sociedades modernas: a vida não é para ser vivida, mas construída com sucessos pessoais e profissionais, uns atrás dos outros, em progressão geométrica para o infinito. É preciso o emprego de sonho, a casa de sonho, o maridinho de sonho, os amigos de sonho, as férias de sonho, os restaurantes de sonho.
Não admira que, até 2020, um terço da população mundial esteja a mamar forte no Prozac. É a velha história da cenoura e do burro: quanto mais temos, mais queremos. Quanto mais queremos, mais desesperamos. A meritocracia gera uma insatisfação insaciável que acabará por arrasar o mais leve traço de humanidade. O que não deixa de ser uma lástima.
Se as pessoas voltassem a ler os clássicos, sobretudo Montaigne, saberiam que o fim último da vida não é a excelência, mas sim a felicidade!»
Subscrever:
Mensagens (Atom)