Recentemente surgiu a notícia de que um biólogo americano afirmou categoricamente que “Deus é um produto do cérebro humano”. Esta proposição é dogmática, e por isso, não é científica. É preciso que as pessoas comecem a ganhar consciência de que existe hoje uma “ciência dogmática”.
A proposição “Deus é um produto do cérebro humano, e por isso, não existe” é dogmática porque a ciência não pode provar a não-existência do que quer que seja ― e principalmente a biologia que segue um princípio tosco de indução e com pouca dedução. A proposição referida é uma crença, e nada mais do que uma crença. A ciência só pode provar que “existe algo”, e nunca pode fazer prova de que “algo não existe”. Desafio o biólogo tosco (ou outro qualquer da nossa praça) a provar-me que as sereias não existem; o que ele me pode dizer é que não foi encontrada nenhuma sereia até hoje, o que não significa que isso seja a prova científica de que as sereias não existem.
E mesmo que fosse provado pela ciência que algo parecido com “Deus” é produto do cérebro humano, isso não significaria absolutamente nada senão o facto da ciência provar a existência de uma determinada excrescência psicológica (a tal ciência que prova que “existe algo”), que é independente da existência ou não de Deus (que a ciência não consegue provar que não existe). Segundo o biólogo em causa, a sua (dele) mente “produz” o seu (dele) “deus” exactamente como o seu (dele) intestino grosso enforma as suas (dele) fezes; o problema é dele, e se o ideal divino dele é cagativo, a verdade é que a prova ontológica não tem nada a ver com isso. A subjectividade do biólogo em causa não é mais do que isso mesmo: subjectividade.
A “vida” não é o que se passa nas células, nas funções somáticas, na digestão e na cagação do biólogo, no sistema nervoso dele e nas suas disfunções, etc. Todas essas coisas biológicas são realidades hipotéticas construídas pela Ciência Biológica que nada mais é do que uma das muitas actividades de função de perspectiva do mundo, que faz parte da “vida” de quem a estuda e investiga ― essas coisas biológicas são apenas um detalhe e um conjunto de ingredientes entre incontáveis que achamos ante nós em função do que é realmente a vida e o universo.
Publicado em simultâneo no Perspectivas
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terça-feira, 4 de novembro de 2008
quinta-feira, 3 de janeiro de 2008
Richard Dawkins Saved My Soul
"I never thought I’d say it, but it’s true. Richard Dawkins has allowed me to break free from this awful atheist obsession that has ensnared me for the last year and a half. Here is how he did it.
“Evolution makes it possible to be an intellectually fulfilled atheist.”
Cool huh?
Of course that’s what he wants. That’s what we all want, to be intellectually fulfilled. And of course it’s evolution that allows him to do that. We all, in our various ways attempt to reduce the universe to the most easily understandable component(s). For him it’s evolution. For others it’s something else."
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domingo, 23 de dezembro de 2007
A fé de um ateu, ou um descrente fervoroso
Tão longe no tempo quanto a História pode perscrutar, verificamos que sempre existiram ateus e não há nenhum mal intrínseco nisso. Contudo, ao contrário de Russell, por exemplo, que era um ateu de convicções pessoais e pouco mais do que isso, Dawkins introduz um elemento novo ao transformar o ateísmo numa religião.
Ser ateu ou não depende da sensibilidade de cada um de nós, e se nos cingirmos à validade da subjectividade humana, um crente não pode ser, sob o ponto de vista ético e moral, menorizado em relação a um não crente em Deus. O que Dawkins pretende claramente com o livro “A desilusão de Deus” é estabelecer uma relação identitária que estigmatize os crentes das diversas religiões, da mesma forma que a Inquisição estigmatizou os ateus na Idade Média.
Sempre me incomodou o snobismo dos ingleses que sempre deu em excentricidade e no complexo da superioridade. Porém, sendo Dawkins inglês e snobe, é profundamente religioso, porque só um religioso dedica uma vida inteira a uma causa. Naturalmente que a religião dele é diferente das existentes: a religião dele é uma profissão de fé sobre a inexistência de Deus; a sua religião é a do anti-Deus.
Dawkins é alguém que se questiona e não encontra respostas, e do alto do seu estatuto de biólogo, escreveu um livro repleto de lugares comuns. Ao contrário do que diz Dawkins, as torres gémeas de NY não caíram por causa da religião, mas por causa da política; o petróleo e a ganância coincidiram no tempo e no espaço com o islamismo, mas se não fosse o islamismo, seria certamente outra ideologia qualquer a catalizar a revolta dos povos do Golfo. A simples alusão às torres gémeas como “vítimas da religião”, logo no início do livro, deu o tom do tipo de argumentos que se iriam desenvolver.
O que mais me surpreendeu no livro foi a pobreza do argumentário, dirigido a um tipo de público mediano. Diria que Dawkins tentou escrever uma “cartilha anti-Deus”, uma espécie de “catecismo de Lúcifer” para leitores com um nível de instrução do 9º Ano. Naturalmente que para rebater um livro inteiro seria preciso escrever outro livro, e não só Dawkins não tem estatura que o mereça, como seria dar valor a uma obra com um valor muito discutível – não só do ponto de vista histórico e filosófico, como até científico. Nobody cares about Dawkins.
Discutir com um ateu é tempo perdido, porque só ele poderá encontrar sozinho a sua verdade. O tipo de linguagem adoptado por Dawkins no seu livro raia o insulto sistemático e o total desrespeito, e desprezo até, por quem não partilha as suas ideias e a sua falta de sensibilidade. Quando é acusado de fundamentalismo, Dawkins diz não é fundamentalista, mas que é guiado por uma “paixão que está sempre disponível para mudar de opinião”, como se fosse possível a um ateu mudar de opinião. Dawkins é tão fundamentalista como um taliban, e Jesus Cristo ensinou-nos que a verdadeira religião é o exercício da tolerância sem permissividade.
Depois de ler o livro – que me foi oferecido – arrumei-o na estante em sítio secundário. Fiquei com a sensação de que Dawkins é um ser humano profundamente infeliz sob a capa da “libertação ateísta” que apregoa. A imagem de super-homem que pretende fazer passar traduz um imenso sofrimento pessoal. O que resta da minha opinião sobre Dawkins pode ser lido aqui, e o seu arquétipo mental está perfeitamente definido, a ponto de não me interessar minimamente por nada mais que ele venha a publicar.
Ser ateu ou não depende da sensibilidade de cada um de nós, e se nos cingirmos à validade da subjectividade humana, um crente não pode ser, sob o ponto de vista ético e moral, menorizado em relação a um não crente em Deus. O que Dawkins pretende claramente com o livro “A desilusão de Deus” é estabelecer uma relação identitária que estigmatize os crentes das diversas religiões, da mesma forma que a Inquisição estigmatizou os ateus na Idade Média.
Sempre me incomodou o snobismo dos ingleses que sempre deu em excentricidade e no complexo da superioridade. Porém, sendo Dawkins inglês e snobe, é profundamente religioso, porque só um religioso dedica uma vida inteira a uma causa. Naturalmente que a religião dele é diferente das existentes: a religião dele é uma profissão de fé sobre a inexistência de Deus; a sua religião é a do anti-Deus.
Dawkins é alguém que se questiona e não encontra respostas, e do alto do seu estatuto de biólogo, escreveu um livro repleto de lugares comuns. Ao contrário do que diz Dawkins, as torres gémeas de NY não caíram por causa da religião, mas por causa da política; o petróleo e a ganância coincidiram no tempo e no espaço com o islamismo, mas se não fosse o islamismo, seria certamente outra ideologia qualquer a catalizar a revolta dos povos do Golfo. A simples alusão às torres gémeas como “vítimas da religião”, logo no início do livro, deu o tom do tipo de argumentos que se iriam desenvolver.
O que mais me surpreendeu no livro foi a pobreza do argumentário, dirigido a um tipo de público mediano. Diria que Dawkins tentou escrever uma “cartilha anti-Deus”, uma espécie de “catecismo de Lúcifer” para leitores com um nível de instrução do 9º Ano. Naturalmente que para rebater um livro inteiro seria preciso escrever outro livro, e não só Dawkins não tem estatura que o mereça, como seria dar valor a uma obra com um valor muito discutível – não só do ponto de vista histórico e filosófico, como até científico. Nobody cares about Dawkins.
Discutir com um ateu é tempo perdido, porque só ele poderá encontrar sozinho a sua verdade. O tipo de linguagem adoptado por Dawkins no seu livro raia o insulto sistemático e o total desrespeito, e desprezo até, por quem não partilha as suas ideias e a sua falta de sensibilidade. Quando é acusado de fundamentalismo, Dawkins diz não é fundamentalista, mas que é guiado por uma “paixão que está sempre disponível para mudar de opinião”, como se fosse possível a um ateu mudar de opinião. Dawkins é tão fundamentalista como um taliban, e Jesus Cristo ensinou-nos que a verdadeira religião é o exercício da tolerância sem permissividade.
Depois de ler o livro – que me foi oferecido – arrumei-o na estante em sítio secundário. Fiquei com a sensação de que Dawkins é um ser humano profundamente infeliz sob a capa da “libertação ateísta” que apregoa. A imagem de super-homem que pretende fazer passar traduz um imenso sofrimento pessoal. O que resta da minha opinião sobre Dawkins pode ser lido aqui, e o seu arquétipo mental está perfeitamente definido, a ponto de não me interessar minimamente por nada mais que ele venha a publicar.
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