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terça-feira, 4 de novembro de 2008

A ciência dogmática

Recentemente surgiu a notícia de que um biólogo americano afirmou categoricamente que “Deus é um produto do cérebro humano”. Esta proposição é dogmática, e por isso, não é científica. É preciso que as pessoas comecem a ganhar consciência de que existe hoje uma “ciência dogmática”.

A proposição “Deus é um produto do cérebro humano, e por isso, não existe” é dogmática porque a ciência não pode provar a não-existência do que quer que seja ― e principalmente a biologia que segue um princípio tosco de indução e com pouca dedução. A proposição referida é uma crença, e nada mais do que uma crença. A ciência só pode provar que “existe algo”, e nunca pode fazer prova de que “algo não existe”. Desafio o biólogo tosco (ou outro qualquer da nossa praça) a provar-me que as sereias não existem; o que ele me pode dizer é que não foi encontrada nenhuma sereia até hoje, o que não significa que isso seja a prova científica de que as sereias não existem.

E mesmo que fosse provado pela ciência que algo parecido com “Deus” é produto do cérebro humano, isso não significaria absolutamente nada senão o facto da ciência provar a existência de uma determinada excrescência psicológica (a tal ciência que prova que “existe algo”), que é independente da existência ou não de Deus (que a ciência não consegue provar que não existe). Segundo o biólogo em causa, a sua (dele) mente “produz” o seu (dele) “deus” exactamente como o seu (dele) intestino grosso enforma as suas (dele) fezes; o problema é dele, e se o ideal divino dele é cagativo, a verdade é que a prova ontológica não tem nada a ver com isso. A subjectividade do biólogo em causa não é mais do que isso mesmo: subjectividade.

A “vida” não é o que se passa nas células, nas funções somáticas, na digestão e na cagação do biólogo, no sistema nervoso dele e nas suas disfunções, etc. Todas essas coisas biológicas são realidades hipotéticas construídas pela Ciência Biológica que nada mais é do que uma das muitas actividades de função de perspectiva do mundo, que faz parte da “vida” de quem a estuda e investiga ― essas coisas biológicas são apenas um detalhe e um conjunto de ingredientes entre incontáveis que achamos ante nós em função do que é realmente a vida e o universo.

Publicado em simultâneo no Perspectivas

quarta-feira, 5 de março de 2008

Ding an Sich

O século 20 foi o século da ciência entendida, sob o ponto de vista filosófico, como a prova da total materialidade do ser humano; foi o século do unanimismo filosófico materialista politicamente correcto.

Enquanto a ciência avançava trazendo à espécie humana a esperança no desconhecido, a filosofia moderna e contemporânea – em geral – transformou o mundo do ser humano num ambiente limitado, antropocêntrico e separado do universo, redutor na sua essência, e tornou o Homem num ser tão descartável como tudo o que tem um valor exclusivamente material.

Personagens como Josef Mengele, por exemplo, não são tanto um produto da ciência como são dessa filosofia do fim do milénio que se proclamava como detentora da verdade acerca da essência material do Homem – coisa que a ciência nunca se atreveu a proclamar porque não o podia fazer segundo a sua própria lógica; a ciência pura só afirma o que pode provar através da análise e extrapolação analítica decorrente dos “Fenómenos” (experimentalismo), e mesmo assim, com as reservas que a probabilística veio introduzir depois da morte do determinismo científico (Einstein, Heisenberg).

O fenómeno da redução do Homem a um mecanismo que reflectia a “causa” da vida como derivada do puro “acaso” (1), que Dawkins defende hoje em nome de uma “ciência” que se confunde com o materialismo filosófico, começou com um paranóico que era mais um romancista do que um filósofo: Nietzsche. Juntaram-se a ele os “Utilitários” (Bentham, James Mill, Stuart Mill), que transformaram as minorias sociais e os seres humanos mais fracos em “danos colaterais”, e descreveram o hedonismo como o “único bem” do ser humano.

Karl Marx (a arrogância do “Fim da História”), Gramsci, Lukacs (a necessidade da morte do espírito humano para o triunfo da revolução marxista), Marcuse e Adorno (“Teoria Crítica” e “Utopia Negativa”), Russell (Ética do Desejo), Heidegger (o ser humano definido como sendo uma “defecação” de uma “existência anónima”), Hayek (do cepticismo de Hume à Cultura como sendo “um conjunto de meras tradições” e passível de transformação através de engenharias sociais coercivas), Sartre (o “absurdo” como única realidade existencial) e Michel Foucault (o filósofo-pedófilo, e como tal assumido publicamente pelo próprio) compõem o ramalhete do materialismo filosófico. Da filosofia do século 20, salvam-se Wittgenstein e porventura alguns fenomenologistas, como Husserl e Scheler, e pouco mais.

O cenário é deprimente.